Meu nome é Karla com K
“Meu nome é Karla com K.” Essa sempre foi minha fala oficial de apresentação. Um dia, na quarta série, uma menina da classe me perguntou: “Seu nome é com M ou com N?” Eu, que desde aquela época já era muito impaciente, disparei um irritado “Como assim?” e em resposta ela, que deve ser muito paciente até hoje, me entregou um papel com duas opções: “Carla Comcá” e “Carla Concá”. Acabou comigo.
Meu nome não tem propriamente uma história: não foi escolhido por admiração a uma atleta, cantora ou atriz, e também não é resultado de promessa feita durante gestação de risco – até porque, até onde eu sei, não existe uma Santa Karla (e minha passagem pela Terra não vai mudar isso, conforme vocês verão adiante). O nome é com K para manter algo da ascendência alemã (meu avô materno se chamava Kurt) e é Karla para homenagear o melhor amigo de meu pai, Carlos. Graças a Deus, ele não era Ermenegildo, cujo equivalente seria feio, porém inofensivo; nem Anaclêto, muito pior pelas rimas no feminino que poderia invocar.
Tive poucos apelidos. Meus pais dizem que foi de propósito que escolheram para as filhas nomes que inibissem abreviações, pois não queriam suas preciosidades chamadas de Bia, Fafá, Sil, Tuta, etc. Mal sabiam eles que o nome de minha irmã, Karina, viraria marca de armários de cozinha a shampoo de quinta categoria, e que eu seria associada a coisa muito pior.
Mas minha babá, ignorando as precauções de meus pais, me apelidou de Petinho – assim, sem o r, no diminutivo e no masculino. Ela era índia e nunca explicou a origem disso, mas quero crer que, em seu idioma nativo, significasse qualquer coisa como “menininha lindinha de meu coração”, e não uma premonição tipo “você é um curumim de saias que vai virar sapatão”.
Minha irmã é outra que me deu um apelido – com a diferença de que o dela tem um significado óbvio. Embora prefira acreditar que, quando ela era criancinha, tivesse dificuldade em pronunciar Karla, no fundo suspeito que já havia um julgamento de valor quando ela passou a me chamar de Káka. Pelo que me lembro, houve pouca reclamação parental sobre isso.
A Patricia, por motivos que serão esclarecidos mais adiante, me chama de Bicho, o que enterrou definitivamente as esperanças de meus pais. Quando terminar o livro, talvez você também tenha alguma idéia de um apelido para mim. Não me mande por e-mail. |