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Meu nome é Pya com P

Nasci Patricia Yury Assumpção, por livre e espontânea vontade de meus pais.

Aos 13 anos fui apelidada de Patyury, e isso durou outros 13.

Os menos íntimos corriqueiramente escrevem meu nome com y ou, ainda pior, com dois t e um y. Até hoje faço inúteis esforços para convencer esses seres de que prefiro Pati. Rejeito e abomino qualquer outra grafia.

Numa viagem a Buenos Aires o “i” foi substituído pelo “o”. Na terra dos amantes do tango, o apelido de Patricia é Pato. Variações amorosas da ave se tornaram minha identidade a partir de então: Patolina, Patola, Patolee. Sorte a minha não ter havido variação entre espécies. Já pensou, gansa ou marreca?

Recentemente, me enfronhei no mundo musical e fundei uma banda de samba composta por nove mulheres. Como não podia deixar de ser, precisava de um nome artístico – escolheram Pati Cavaquinho. Ok!, foi a melhor das três alternativas propostas. Pior seria Pati Meio Metro ou Pati Pagodinho.

Acompanhando o giro de 175º de minha vida, decidi rebatizar-me. Escolhi Pya Lima. Todos sem exceção me questionam: “Pya Lima?” É, Pya Lima: P de Patricia, Y de Yury e A de Assumpção. “E o Lima?” Lima de Karla Lima, minha mulher. Romântico, relevante e consistente, esse é então meu novo nome.

Os mais observadores devem estar-se perguntando: “Por que então este indefinível projeto está assinado por Karla Lima e Pya Pêra?” Tudo na vida é uma questão de harmonia ajustada ao contexto. Acho que assinar Pya Lima e Karla Lima é um tanto quanto redundante e pouco estético.

Antes que alguém me ponha contra a parede (e não que eu não goste de sê-lo, mas depende da forma e da pessoa), eu explico o porquê. Pya Pêra é o resultado de um exercício de livre associação. Veja: Sol? Lua. Feira? Fruta. Lima? Laranja. Laranja? Pêra. Capisco, chuvisco? Lima? Pêra.

Aproveitando o ensejo e o prazer que o autobatismo vem-me concedendo, criei mais um codinome: Pya Melancia, para assinar alguns textos que ando desenvolvendo para o público infantil.

Conclusão: em mim existem Pya Lima, Pya Pêra e Pya Melancia. Para completar o pomar falta pouco e, no ritmo que as coisas andam, tudo parece conspirar para a criação de uma horta: Pya Abobrinha, Pya Pimenta e Pya Chuchu – o único entrave será a convivência pacífica das múltiplas personalidades que terei que administrar em meu dia-a-dia.

Meu nome é Karla com K

“Meu nome é Karla com K.” Essa sempre foi minha fala oficial de apresentação. Um dia, na quarta série, uma menina da classe me perguntou: “Seu nome é com M ou com N?” Eu, que desde aquela época já era muito impaciente, disparei um irritado “Como assim?” e em resposta ela, que deve ser muito paciente até hoje, me entregou um papel com duas opções: “Carla Comcá” e “Carla Concá”. Acabou comigo.

Meu nome não tem propriamente uma história: não foi escolhido por admiração a uma atleta, cantora ou atriz, e também não é resultado de promessa feita durante gestação de risco – até porque, até onde eu sei, não existe uma Santa Karla (e minha passagem pela Terra não vai mudar isso, conforme vocês verão adiante). O nome é com K para manter algo da ascendência alemã (meu avô materno se chamava Kurt) e é Karla para homenagear o melhor amigo de meu pai, Carlos. Graças a Deus, ele não era Ermenegildo, cujo equivalente seria feio, porém inofensivo; nem Anaclêto, muito pior pelas rimas no feminino que poderia invocar.

Tive poucos apelidos. Meus pais dizem que foi de propósito que escolheram para as filhas nomes que inibissem abreviações, pois não queriam suas preciosidades chamadas de Bia, Fafá, Sil, Tuta, etc. Mal sabiam eles que o nome de minha irmã, Karina, viraria marca de armários de cozinha a shampoo de quinta categoria, e que eu seria associada a coisa muito pior.

Mas minha babá, ignorando as precauções de meus pais, me apelidou de Petinho – assim, sem o r, no diminutivo e no masculino. Ela era índia e nunca explicou a origem disso, mas quero crer que, em seu idioma nativo, significasse qualquer coisa como “menininha lindinha de meu coração”, e não uma premonição tipo “você é um curumim de saias que vai virar sapatão”.

Minha irmã é outra que me deu um apelido – com a diferença de que o dela tem um significado óbvio. Embora prefira acreditar que, quando ela era criancinha, tivesse dificuldade em pronunciar Karla, no fundo suspeito que já havia um julgamento de valor quando ela passou a me chamar de Káka. Pelo que me lembro, houve pouca reclamação parental sobre isso.

A Patricia, por motivos que serão esclarecidos mais adiante, me chama de Bicho, o que enterrou definitivamente as esperanças de meus pais. Quando terminar o livro, talvez você também tenha alguma idéia de um apelido para mim. Não me mande por e-mail.